sábado, 19 de setembro de 2009

Palavrão e a Sombra - Parte 2

Iniciei esses artigos falando sobre como os palavrões sinalizam grande parte das sombras humanas que dependem sempre do contexto social-histórico que são verbalizados.
Continuarei falando sobre o FILHO DA PUTA.
Todo o mal e preconceito do sexo recai sobre os ombros das prostitutas. São as mulheres consideradas sem dono, “da vida”, sem moral, mulheres que todos os homens desejam e amaldiçoam. Desejo obscuro das mulheres em se tornarem como uma delas. “Aja como uma dama na sociedade e uma puta na cama” para segurar seu homem. O fetiche masculino de um encontro casual fortuito e sem sobrenome. O sexo pelo sexo. O FILHO DA PUTA, portanto, é fruto de um “pecado” antigo da raça humana. Enfim, se há algum lugar para se mandar onde vigora a desonra e a podridão é ao lado de sua projenitora, ou seja, para a PUTA QUE O PARIU.
Agora, como prometido sobre TOMAR NO CÚ.
VAI TOMAR NO CÚ segue na esteira do anterior. O coito anal é de longe associado a práticas vulgares e segundo o antigo testamento digno de punição divina. Associado também com a relação homossexual masculina, carrega consigo toda a ojeriza de homens e mulheres com os homens homossexuais. No inconsciente tido como fraco, anti-natural e como regressão das práticas sexuais. No campo dos tabus da heterossexualidade a relação anal somente pode ser praticada pelas prostitutas, já que se deixam conhecer na intimidade corporal por inteiro, são pagas para isso. A ambigüidade no inconsciente feminino gerada é se as prostitutas fazem, eu que não sou prostituta não DEVO fazer ainda que QUEIRA fazer. Em contrapartida se eu não for uma mulher sexualmente completa abrirei espaço para as “mulheres da rua” fazerem e por isso DEVO fazer mesmo que NÃO QUEIRA fazer. Em qualquer caso existe conflito e constrangimento.
As exclamações, MERDA! e BOSTA! denunciam os nossos pudores com as excrescências do corpo e com aquilo que sai dele. O que é meu ou o resto do que me pertenceu é tido como sujo, feio e imundo. Não há aqui uma apologia do culto às fezes, mas tanto quanto a urina, o suor, a saliva, os cabelos e pedaços de pele que caem, as fezes são parte dos restos não produtivos da fisiologia corporal. Não há sujeira ou pecado nisso, apenas respeito com a fisiologia. Descarta-se sem repugnância.
A exclamação CARALHO! diante de uma frustração nos fala dos tabus ainda existentes em torno do pênis. O falo, símbolo de poder associado ao homem é vítima tanto de fascínio quanto rejeição. Toda a agressão perpetrada sexualmente é feita com o coito forçado do pênis. A associação do CARALHO com a força de raiva descarregada no palavrão pode remeter ao tipo de distorção do uso corporal nos abusos de toda ordem. Socialmente o falo-pênis simboliza o domínio patriarcal doentio que a sociedade atual vem tentando superar de forma ainda infrutífera. Sou superior, forte e respeitado porque tenho pênis. O ressentimento coletivo das mulheres com essa desigualdade somado com o fardo masculino da obrigação de força e inibição dos sentimentos dão ao CARALHO! toda a sua energia de violência.
Vou dar mais um fôlego para você, afinal ficar com muito palavrão na cabeça até cansa. Falarei sobre o CORNUDO e VADIA... Não perca!

Um comentário:

  1. Olá, Frederico!

    É muito bom ler o que escreve!
    Um grande abraço,

    joão jacinto

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