terça-feira, 24 de maio de 2011

Morte da vida


Já notaram como somos afobados em colocar pontos finais em questões fundamentais da vida?

“Esse sou eu”

“Sou assim mesmo”

“Quem tem dinheiro tem tudo”

“Sem amor eu não vivo”

Adoramos classificar e nomear qualquer experiência humana. “Felicidade é isso”, “desgraça é aquilo”, “isso não é amor”, “traição eu não perdoo” e outras tantas definições.

Vocês conseguem notar quão raso isso pode ser?

Como eu posso dar nome para o dia que percebi que aquele frescor da manhã de 5 de abril de 1998 me fazia respirar mais suave num momento da vida que parecia tão estranho?

Eu poderia resumir isso em uma palavra? Mesmo descrevendo essa situação imaginária isso traduziria o exato momento que vivi? Mesmo retratando fielmente, como um romancista, isso tornaria a experiência mais saborosa?

Isso me leva a pensar que suportamos muito pouco nossa vida sem oferecer a ela as algemas da definição verbal. Caminhar de mão dadas com alguém que trata você de um modo gentil e afetuoso precisaria receber o nome de amor para ser mais amor?

Chamar o dia de amanhã de amanhã torna ele mais hoje?

Chamar o sol de sol o torna mais quente?

Penso que isso são coisas para a ciência.

Os ansiosos de plantão adoram definições. Odeiam surpresas e idolatram agendas. Querem arrebentar o encanto da vida com comentários clichês. Parecem aquelas pessoas chatas que ficam comentando o filme o tempo todo para não se deliciarem de emoções intensas.

Na vida cotidiana nos caberia apenas respirar o ar e gozar do benefício daquela sensação inebriante que uma leve brisa pode nos proporcionar.

A definição, poeticamente falando, mata a existência ao colocar a paixão no dicionário.

Transformar uma experiência em substantivo tira a singularidade de cada segundo vivido pelas quase 7 bilhões de pessoas que compartilham a Terra conosco.

Seria demais deixar pontas soltas? Momentos sem nome? Histórias sem título? Pessoas sem RG? Sem pronome possessivo?

Não sei responder... Acho que nem é preciso...

2 comentários:

  1. Não queria comentar.. mas minha ansiedade n deixou. ushaush Realmente gosteii desse texto!! Meioo feno! =]

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  2. Frederico Mattos26 de maio de 2011 04:58

    É... Bem fenomenologia... Essa visão de mundo me encanta!
    Vamos combinar de bater papo guri!
    Abraços

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